terça-feira, 21 de abril de 2009

Nevermore (nunca mais)

É o horror.Foi minha primeira impressão ao ler"A Filosofia da Composição" de Eggar Allan Poe.Me senti quase traída quando leio o poema "O Corvo" , me emociono e depois vejo a maneira como foi construído e me espanto.Quanto pragmatismo.Cadê os "ãos": inspiração,imaginação...

Fico disposta a nunca mais ler qualquer coisa do autor.Mas pondero,reflito,releio um e outro,lembro da Rosa Monteiro dizendo que confundimos criador e criatura.O que se escreve é sempre invenção.
Os versos comoventes e belos foram milimétricamente pensados para causar tais impressões.São como uma equação matemática onde a dimensão mais o terreno e o tom,tudo previamente elaborado,resultam em encantamento e prazer.
O escritor tem o domínio da situação.Ele comanda.Ele rege.A imagem da regência me vêm agora muito cristalina.O autor diz que queria uma obra universalmente apreciável,de tamanho menor,melancólico,com estribilho fiel a monotonia do som mas alterado na idéia,busca os personagens ideais :o corvo,a mulher bela que morreu e o amante solitário.Assim o autor,nos trás a palavra,que trás a idéia ,que expande a imagem e as sensações aos olhos do leitor.
Então é um paradoxo.O escritor precisa se distanciar ,ser calculista,quase cruel para chegar a algo tão intenso de rara sensibilidade e profundo reconhecimento do que é mais humano.Nossas fraquezas,a morte e a solidão.
Fica claro que a preocupação com a forma em seu detalhe nos leva ao conteúdo pleno.Há que se ter uma meta para fazer surgir do fundo branco algo previamente elaborado,de valor ,com o tom,a precisão, o terreno e a familiaridade certos.
Nunca mais será tempo de ler um texto ou um verso de beleza estonteante e pensar que tudo veio de um sopro divino.À partir de agora quem se achar agente de pureza divina terá minha antipatia.

Sobre Joãos e Picassos


Como dizia picasso"Que a inspiração te pegue trabalhando", e o João Cabral de Melo Neto,atento que é ou parece ser,nem precisou desta fala do pintor famoso para decifrá-lo e tratou logo de nos alertar quanto a necessidade de organização das idéias em cima de um planejamento concreto,com plano de ação que traga o passo a passo,tijolo por tijolo,concatenando idéias para construir algo muito claro ao pintor , ao escultor, ao compositor ou ao escritor,mas que no seu interlocutor desperte múltiplas interpretações ou não.
As diversas linguagens da criação trazem a singularidade de provocar diferentes interpretações sobre uma mesma obra sem que o seu construtor tenha como controlar ou até impedir que isso aconteça.E qual seria a utilidade de uma obra fechada em si mesma se a arte é um organismo que nasce para ser expandido e compartilhado até a exaustão?
Então tá.Eu construo a minha casinha e qualquer pessoa pode vir e palpitar?E pensar e dizer isso e aquilo?Isso,aquilo,aquilo outro e muito mais, porque se desgarra de mim e torna-se de domínio público, porque nunca se deve bastar com o que sabemos.
Negar essa condição seria como dizer que a compeensão limita-se a uma só.E como ser uma só se a própria produção vêm de formas diferentes,por escassez ou por excesso de ser,segundo João.
Então a pergunta vêm : - Por que será que mesmo com o autor nos desobrigando de uma compeensão hermética do verso e da prosa ,esta é a que nos preenche mais?Talvez porque teríamos a ilusão de um elo mais forte com o autor.Vai saber.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Para Luara




Entro no túnel do tempo com saudade e satisfação porque sei que mãe e filha são elos de uma mesma corrente que se perpetua.Eu sou o futuro de minha filha e minha filha é o meu futuro.
Lembro que a Luara chegou de um parto rápido,bem pequena e tão inteira e tão desejada que mesmo sem saber se seria menina,ela já tinha um nome.
Luara ,nome indígena,coisa de mãe jovem.O nome tem a ver com luminosidade e ela nasceu ao meio dia e pedi alta ao doutor porque sabia que eu e ela nos bastávamos naquele momento.
O nascimento do filho é arrebatador,menos por sua idealização e mais porque é a força da natureza se impondo de maneira brutal e dolorosa que depois acalma como se nada fosse.
E a filha vai crescendo e um dia você percebe que ela te observa enquanto você se troca e remexe nos colares,nas roupas e há uma admiração em seu olhar.Me faz importante.No futuro minhas coisas e até minha imagem,serão dela ,com um pouco de mim.
Hoje minha filha está uma adolescente.Eu a amo e sei que será uma bela mulher,mas sei também que a leveza da infância se foi e que a alegria que ela sentia ao pular corda cada vez mais rápido,como descreveu a professora no relatório escolar de quando ela tinha seis anos,ficou para trás.Talvez ela jamais vá ser feliz como então.
Ambas nos reconhecemos uma na outra,nos admiramos e até nos invejamos.A beleza que perdi renasce nela e a força também.Existem fases duras e fases bem felizes quando conseguimos dividir experiências e fazer planos conjuntos,vibramos uma pela outra nos apoiamos em momentos ruins e comemoramos os bons.Somos bem diferentes,brigamos às vezes mas há uma ponte entre nós que nos une e nos torna parceiras e companheiras nessa jornada em busca de felicidade.Há uma ligação rara entre mãe e filha ....
Por isso toquem tambores,acendam as luzes,e soltem rojões porque hoje minha filha completa quinze lindos anos.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Eu Não Posso Me Livrar De Mim Mesma

Então é isso,eu leio em busca de aconchego.Quase procurando um colo.Eu não posso me livrar de mim mesma nem de minha história,mas eu posso expandí-la e me juntar ao resto do mundo ou até trazê-lo a mim através da leitura.
Quando a Adélia Prado escreve que limpar um peixe é um ato de amor,eu na minha vida mediocre,no sentido de linearidade,quase vulgar,no sentido de simplicidade, me sinto como se alguém me traduzisse ou até mesmo confirmasse o sentido de minha existência,mesmo que eu já soubesse por intuição.
Gosto da leitura como expansão de idéias.Leio os jornais porque acho que devo,leio as revistas porque me divertem e leio os livros porque me acolhem.Tenho muitos,não os li todos,mas sei que todos terão o seu momento.
Noutro dia indiquei um ao meu filho e dias depois ele me devolveu dizendo que não suportou aquela literatura de "mulherzinha".Fiquei pensando se ele tinha ou não razão...O pai leu e defendeu a minha leitura.E assim eu me apaixonei um pouco mais por este homem que comigo está.
Se leio algo que não compreendo totalmente vou em frente, tentando absorver a informação, mesmo que seja de uma forma generalizada.Mas quando ouço a Márcia destrinchar um poema do João Cabral de Melo Neto,fico com vontade de ter aquela compreensaõ tão caprichada dos poemas,que considero uma leitura bem difícil,mas das mais prazerosas,quando da sua compreensão,porque a palavra ,a frase, o texto,o verso são dignos de nossas palmas ,nossas lágrimas e até de nossa aversão,mas não de nossa indiferença.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Nada é só o que é

Pensar na minha relação com a escrita,me faz pensar que quando escrevo nada é só o que é,porque eu venho de uma família com mãe professora mas a minha casa não tinha livros e a cidade pequena nem tinha livraria.
E eu gostava de escrever no meu diário aquelas confissões de adolescente e gostava de escrever cartas para o meu irmão que já não morava mais lá e ainda gosto de escrever cartas bem comoventes e até ridículas de tão sensível a problemática alheia, que eu pareco ser,porque não me considero.Então de onde vem isso?Esse desejo de parecer sem ser?
Daí eu volto lá pra minha casa na infância e me vejo ouvindo sempre boa música e gostando muito.A palavra cantada é a minha biblioteca com várias prateleiras...Meu pai me trouxe esse presente.
Nessas prateleiras eu às vezes encontro o choro,às vezes o canto,às vezes a dança e às vezes a palavra que parece a certa e às vezes o silêncio.E é sempre bom.Não consigo ainda dar o tom liríco que eu gostaria muito de encontrar,mas eu chego lá.