É o horror.Foi minha primeira impressão ao ler"A Filosofia da Composição" de Eggar Allan Poe.Me senti quase traída quando leio o poema "O Corvo" , me emociono e depois vejo a maneira como foi construído e me espanto.Quanto pragmatismo.Cadê os "ãos": inspiração,imaginação...Fico disposta a nunca mais ler qualquer coisa do autor.Mas pondero,reflito,releio um e outro,lembro da Rosa Monteiro dizendo que confundimos criador e criatura.O que se escreve é sempre invenção.
Os versos comoventes e belos foram milimétricamente pensados para causar tais impressões.São como uma equação matemática onde a dimensão mais o terreno e o tom,tudo previamente elaborado,resultam em encantamento e prazer.
O escritor tem o domínio da situação.Ele comanda.Ele rege.A imagem da regência me vêm agora muito cristalina.O autor diz que queria uma obra universalmente apreciável,de tamanho menor,melancólico,com estribilho fiel a monotonia do som mas alterado na idéia,busca os personagens ideais :o corvo,a mulher bela que morreu e o amante solitário.Assim o autor,nos trás a palavra,que trás a idéia ,que expande a imagem e as sensações aos olhos do leitor.
Então é um paradoxo.O escritor precisa se distanciar ,ser calculista,quase cruel para chegar a algo tão intenso de rara sensibilidade e profundo reconhecimento do que é mais humano.Nossas fraquezas,a morte e a solidão.
Fica claro que a preocupação com a forma em seu detalhe nos leva ao conteúdo pleno.Há que se ter uma meta para fazer surgir do fundo branco algo previamente elaborado,de valor ,com o tom,a precisão, o terreno e a familiaridade certos.
Nunca mais será tempo de ler um texto ou um verso de beleza estonteante e pensar que tudo veio de um sopro divino.À partir de agora quem se achar agente de pureza divina terá minha antipatia.


