segunda-feira, 25 de maio de 2009

Estratégias de leitura e escrita

Susan Sontag nos conta que para ela é impossível dissociar leitura e escrita. Quanto a mim, digo o mesmo.
Para escrever fico pensando durante algum tempo sobre um assunto, matutando idéias, frases, palavras, pensamentos... Procuro ler novidades ou reler algo que minha memória me diz que será esclarecedor ou enriquecedor para a elaboração de novas idéias. Todos os meus sentidos ficam voltados para essa função.
Por exemplo, estava eu pensando como relatar minhas estratégias neste texto, quando ouvi no rádio uma música que dizia assim: "a palavra não fala, eu me reconheço quando escrevo..." - a palavra cantada sempre me atrai e estimula. Uma palavra sozinha não tem a força do conjunto. E quanto a me reconhecer quando escrevo, eu acrescentaria que também me invento, assim como invento ou reconstruo personagens ao meu redor.
Já acordei de madrugada e anotei uma frase que me veio a cabeça, para não perdê-la. Sempre releio, reviso e reescrevo durante todo o processo de transposição do que passa pela minha cabeça para o texto escrito e muitas vezes este segue por caminhos que eu não havia imaginado.
Então é como disse o João Cabral de Melo Neto, um texto vai se tecendo na medidda em que vamos juntando a idéia com a informação recente, mais a memória de longo prazo, mais o cuidado com a forma e mais a percepção de a quem se destina, diferentemente da leitura, que pertence somente a mim e enquanto leio faço anotações e resumos de acordo com a complexidade do texto e de minhas necessidades.
Disse Nélida Piñon: "assim enlaço os temas possíveis para melhor me entender, para subsidiar os recursos da memória, que me abastecem com a habilidade de recordar os feitos ocorridos hoje, ontem, há milênios, que julgo meus, da minha esfera tribal."

domingo, 24 de maio de 2009

Depoimentos do livro como escrevo

Em realidades nem tão distintas assim,verificamos que os escritores utilizam de diferentes métodos e procedimentos para chegar ao objetivo da mensagem que se deseja passar. Há certas necessidades que tem que ser supridas na produção literária,tais como o que escrever, para quem, de que maneira, conhecimento prévio sobre o assunto, pesquisa sobre o conteúdo, regras de ortografia e algumas técnicas sobre redação, são algumas delas, além de trabalho intenço de escrever e revisar e reescrever, para chegar a resultado final satisfatório.
Jorge Amado escrevia quando sentia vontade, Clarice Lispector declarou que o processo de escrever é feito de erros, Sidney Sheldon dita, Antonio Torres diz que tudo depende de uma primeira frase, Ana Maria Machado diz que escrever é como descer uma onda, Érico Veríssimo declara que seus personagens são inconcientemente retrato de pessoas que já viu por aí, Jô Soares faz um roteiro, Fernando Sabino diz que para criar o escritor precisa ser como a criança solta no parque mas sobre supervisão de um adulto, Ligia Fagundes Teles declara que escreve de uma vez, Isabel Allende tem rituais, Manoel de Barros anota coisas em pequenos cadernos, Carlos Drumond de Andrade escreve a partir de uma provocação sem deixar de ser crítico, Lya Luft escreve pela manhã.
Foram tantos os depoimentos e tão impregnados de metáforas e de falta de clareza na percepção de seus métodos de trabalho, mas, de alguma maneira nos estimula porque fica entendido que o processo de criação do texto exige comprometimento, zelo e dedicação.

Memórias de Graciliano Ramos

O escritor Graciliano Ramos enquadra-se naquela categoria de romancista que tem uma experiência traumática em sua história de vida que pode ter sido sua mola propulsora para a produção literária.
Segundo Rosa Montero em seu livro "A louca da casa", um grande número de romancistas teve uma experiência precoce de sofrimento ou decadência e mesmo os romancistas que não tem nenhum registro de uma catastrofe não quer dizer que não tenha ocorrido, de tal maneira que estes escritores acreditam ter perdido o paraíso e escrevem em uma tentativa de recuperá-lo.
O depoimento de Graciliano Ramos, quando da tentativa de seu pai em alfabetizá-lo e o castigo físico a que foi submetido por não aprender, faz pensar na solidão e na dor do corpo e da alma do romancista e quanto suas obras trazem desses sentimentos ou não.
Disse o escritor certa vez, que devemos escrever como as lavadeiras.Uma primeira lavada, depois molhar, torcer, molhar novamente, voltar a torcer, depois enxaguar, dar mais uma molhada, bater e torcer até não pingar uma única gota e pendurar no varal para secar.Para Graciliano Ramos, assim deve ser o processo da escrita.Buscar a palavra que diga, e não a palavra que brilhe como ouro falso, apenas para enfeitar, ou seja, é necessário trabalhar muito em busca da harmonia entre a forma e o conteúdo.
Interessante saber, que não por acaso, esse romancista é considerado um dos escritores mais concisos da literatura brasileira e teve atuação política como prefeito de Palmeira dos Índios onde revolucionou o sistema de ensino público da cidade.

Memórias de João Ubaldo Ribeiro

Lendo o João Ubaldo contar sobre a maneira como foi criado é de se pensar se essas memórias são possíveis ou se são uma daquelas memórias inventadas de tão deliciosas e divertidas que são.
Como é possível um pai dizer que cheirar livros é normal e ainda enfatizar que o filho está cheirando os livros certos, mas lendo os errados. É de causar inveja, sendo verídicas ou não, o depoimento do escritor descreve um ambiente familiar que favorecia a criatividade e as habilidades transitárias entre os saberes de todos os membros da família, incluindo pais, irmãs e avós. De maneira que o João Ubaldo conseguiu assimilar com humor os ensinamentos rigorosos de seu pai e transportá-los com muita leveza para os seus romances.Seus livros são muito bem humorados.
Este escritor foi privilegiado na formação. Aos doze anos já tinha lido Shakespeare, D. Quixote, Fausto, Divina Comédia, a Ilíada, a Odisséia, Montaigne, Poe, Alexandre Herculano, José de Alencar, Machado de Assis, Monteiro Lobato e nem sabe dizer outros tantos clássicos que passaram pela sua vida de menino, muitas vezes como ele próprio diz, causando efeitos surpreendentes.
Poderíamos concluir que de certa forma, o João Ubaldo, não poderia ser outra coisa a não ser escritor, assim como suas irmãs, mas, pelo que se sabe, apenas ele escreve porque se sente confortável ao fazê-lo e dedica-se, ou não seria o escritor com diversos sucessos literários que conhecemos.

Seminário 6: A evolução do texto: do manuscrito ao digital

Com base nos textos de Eco e Chartier, sabemos que atualmente estamos vivendo uma fase de transformações da cultura escrita, onde o computador vem ganhando cada vez mais espaço em relação aos livros. Qual a sua opinião sobre o futuro dessas tranformações? É possível que os livros sejam totalmente substituídos pelo computador?
Toda novidade atrai e causa deslumbramento.Na área editorial não poderia ser diferente.Os inventos são surpreendentes e estimulantes.
O livro virtual, disponível na tela do computador,avança em inovações e nos traz a reflexão sobre onde poderemos chegar e qual o lugar do livro impresso nesse contexto.
Os leitores eletronicos estão prontos para aderir as novidades já que os recursos da tecnologia trarão facilidades ao cotidiano de trabalho de alguns profissionais que utilizam muitos textos tais como advogados, editores, jornalistas, professores e universitários.A vantagem sobre o livro impresso é a compra instantânea de qualquer texto em qualquer lugar.
Há queixas sobre a tela ainda fosca, o custo de um aparelho apenas para leitura que pode sujar ou enferrujar, caso seja levado a praia, e ainda sobre quem viajar levar notebook, celular, leitor eletrônico com seus respectivos cabos e carregadores.
Essas são questões do início de uma revolução tecnológica.Com certeza haverá aprimoramento na qualidade da visualização, conseguirão juntar varias funções em um único aparelho e as pessoas aderirão a novidade conforme suas necessidades, seu interesse e o barateamento do produto.
Quanto aos livros impressos é certo que haverá um abalo inicial mas não deixarão de existir.Pois, desde que o livro em folhas de papel grudadas foi inventado, nenhuma outra forma mais acertada e agradável foi criada.Essa forma de organização expandiu para as revistas e até para os trabalhos acadêmicos.Na verdade, o leitor eletrônico surge como mais uma opção porque facilita o acesso e o armazenamento e ainda permite que se façam anotações.

Seminário 5:Os suportes materiais e sua participação na construção do sentido

Se acreditássemos que desenhar,dançar,cantar,tocar um instrumento ou escrever,são gestos divinos que dependem de dom e inspiração poderíamos pensar que toda criação já viria pronta e que pesquisar,ensaiar ou revisar seria desnecessário para tornar uma obra inacabada e incompleta, em algo muito concatenado na forma e conteúdo.
A editoração traz propostas novas que atendam a demandas mercadológicas,muitas vezes em detrimento da qualidade,mas em muitos casos busca-se fazer o que for necessário para melhorar a qualidade das publicações.
O papel do editor é auxiliar o escritor a reescrever,retirar ou acrescentar palavras ou frases ou até mesmo capítulos inteiros para que a obra escrita fique clara e bela, de maneira que não aconteça um distanciamento entre o que se quer dizer e o que se diz efetivamente, para que ocorra um elo entre autor e leitor.

Seminário 4: O que fazemos quando escrevemos

Qual a sua prioridade no processo da escrita:ser claro ou a construção de um texto belo para impessionar o leitor?
No processo da escrita muitos podem ser os objetivos e muitos são os caminhos para a resolução dos problemas, de acordo com as minhas metas.
Se escrevo para passar uma informação, busco a palavra que mais clareza e precisão traga ao texto, mas no caso de dissertação procuro conciliar a idéia com a palavra mais certeira para causar encantamento ou reflexão.O efeito é totalmente intencional.É uma busca.
Recentemente li para meus filhos um livro infantil do Ignácio de Loyola Brandão: "O menino que vendia palavras", que conta uma história inspirada na vida do autor,onde um menino tem muito orgulho de seu pai, homem culto e inteligente que conhece muitas palavras e o menino começa a "vender" o significado de algumas para seus amigos, sem que seu pai saiba. Dentre outros ensinamentos o pai transmite ao menino a importância das palavras pois é um recurso valioso para conversar, orientar as pessoas, explicar suas idéias e sentimentos, desempenhar melhor suas tarefas, progredir na vida, entender todas as histórias que lê, e até mesmo convencer uma menina a namorá-lo!Eis a palavra!

Seminário 3: O que fazemos quando lemos

O que você entende por contexto durante a leitura?
Ler é um ato de comunicação que carrega algumas condições para o compartilhamento de idéias, tais como : a maturidade do leitor, a complexidade do texto, seu estilo e seu gênero.
O leitor tem alguns objetivos a serem perseguidos. Vamos caminhando pelo texto procurando atingir metas que exigem a execução de inúmeros processos.
Um texto tem forma adequada a sua função, transmite intenções e conteúdos na medida em que o leitor estabeleça uma relação de cooperativismo com a produção escrita, caso contrário, não haverá comunicação entre emissor e receptor.
o leitor deverá adaptar sua necessidade ao desafio que o texto lhe apresenta, de maneira que ambos estabeleçam uma parceria. O escritor pode apresentar suas idéias em diferentes contextos e o leitor as decifrará se utilizando de diferentes estratégias tais como resumos, recortes, memorização formal ou afetiva e associações, dentre outras possibilidades.

Seminário 2:História da leitura no ocidente:da leitura em voz alta à leitura silenciosa.

Ensinar a ler em voz alta é ensinar a ler? Qual a função da leitura em voz alta ? Hoje?
A leitura passou por alterações em sua função desde a idade média até nossos dias.
Antigamente reproduzia-se a fala na escrita e a compreensão da leitura só era possível com a leitura em voz alta. Somente com a pontuação a escrita tornou-se independente da fala, de tal maneira que hoje a leitura em voz alta é na maioria daz vezes uma opção por razões diferenciadas tais como entretenimento ou como estratégia de assimilação de conteúdo.
Não é possível aprender a ler em voz alta sem antes aprender a escrever, mas estimular o aprendiz a ler pequenos textos para si ou para um grupo é uma maneira eficiente de dar sentido a um conjunto de palavras organizadas de maneira diferenciada, de acordo com as exigências do contexto, tais como: uma receita, um conto, etc e assim tornar essa prática parte integrante do aprendizado da linguagem escrita.

Seminário 1: A natureza da escrita: a criação do alfabeto fonético

Kato afirma que assim como a fala influencia a escrita, a escrita influencia a fala. Explique o que você entendeu desta frase.
Por que escrever? Porque falamos e a linguagem humana é a única em que há a troca que traz a necessidade de expansão e compartilhamento de informações e idéias e a linguagem escrita mostrou- se bastante eficiente neste sentido.
Aprender a falar parece fácil e de início a conexão entre a linguagem oral e a escrita é inevitável mas, ao nos apropriarmos de noções preestabelecidas das regras gramaticais e de vocabulário avançamos por maneiras mais elaboradas de escrita e somente assim, essa linguagem traduz efetivamente a linguagem oral, amparada por amplos e certeiros recursos, na forma e no conteúdo.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Susan Boyle e eu

Caso alguém não tenha ouvido falar em Susan Boyle,digo que é uma escocesa de 47 anos,uma mulher simples,desajeitada,sem profisão,que cuidava da mãe doente.Tem uma aparencia no mínimo estranha,com um corpo e rosto sem a harmonia das formas e ainda por cima estava mal vestida e mal penteada,quando apareceu num programa de calouros na Inglaterra.Afirmou aos entrevistadores que nunca foi beijada.O público e os jurados a observavam com deboche e certos de que algo muito ruim sairia dali.Então ela começa a cantar e sua voz é tão maravilhosa que provoca em todos um grande impacto,todos a aplaudem com empolgação.E a pergunta rola:como pode haver algo tão belo,no feio?Era uma contradição.
Essa história me comoveu porque consigo traçar um paralelo com a minha.Para alguns que comentam sobre a Susan,o fator determinante foi a sorte.Eu não posso crer que sem empenho,algo tão transformador aconteça com alguém.Até hoje eu me dediquei completamente a minha família,assim como Susan dedicou-se a mãe doente por muitos anos.Susan cantava no coro da igreja enquanto eu amadurecia a idéia de trabalhar com educação.Sempre acreditei,assim como Susan,que minha vida vale a pena.
Todos temos nossas singularidades e muitas vezes temos que atravessar nossa solidão pessoal e trabalhar muito até que possamos nos expressar.Susan teve a iniciativa de se inscrever no programa,quanto a mim,reorganizei toda a rotina de minha casa para estar aqui.E gosto.
A vida chama,nós adiamos mas não deveríamos evitá-la.Agir me parece o melhor movimento.
Ao final da apresentação, Susan foi questionada sobre sua coragem em começar a cantar,apesar das vaias e do aparente desprezo de todos.Ela respondeu:"É a gente que tem de se levar a sério". Caso alguém queira ouví-la é só procurar no You Tube.

domingo, 3 de maio de 2009

Sobre os seminários

Vem de longe,lá de longe, toda a beleza que há na história da construção do alfabeto e o quanto ele serve a leitura,a escrita e a oralidade,porque ambos se completam.
O ser humano move-se e inventa novidades de acordo com as necessidades que vão surgindo. Sendo assim, fomos em busca de uma representação de fatos e o pictograma e o ideograma bastavam,mas precisavamos representar a fala e para tal criamos o silabario,que exigia muitas representações e consequentemente muito a decorar.Ficou inviável.Então criamos o sistema alfabético,suficiente até quando?Não sabemos.
Quando nos apropriamos da escrita alcançamos um mundo novo,porque passamos a participar do jogo social onde escrita e leitura se apresentam como um trunfo fortíssimo de troca,de criação e até de salvação.Digo isso porque tive avó analfabeta e sei dos riscos e das limitações que passou.
Talvez por seu analfabetismo,minha avó,tinha uma oralidade belíssima.Contava muitos casos,era gentilíssima no trato com as pessoas,era pequena e delicada e não gostava nem um pouco de televisão.Gostava de cantar.Estava sempre impecavelmente arrumada e seus cabelos lisos em corte chanel,sempre muito bem penteados.
Gosto de descreve-la porque poderiam pensar que por ser analfabeta,ela pareceria desleixada.De modo algum.Aos meus olhos minha avó era a minha escriba que sem saber escrever,decifrava códigos e comportamentos somente com os atos e a fala.
Hoje não tenho mais a minha avó por perto,mas esbarro em algumas formas de troca de informações ou saberes através da leitura compartilhada, quando eventualmente estou em igrejas ou tribunais.Estas não geram prazer,no caso da igreja às vezes produz uma sensação de paz.Cotidianamente quando leio aos meus filhos ou eles a mim,aí sim,é puro deleite.
Enquanto vamos lendo os códigos que a vida nos apresenta,vamos examinando propostas e decodificando sinais.Isso se limita com o que ocorre em nossa mente quando lemos um livro.
Às vezes a leitura é um ato de decodificação sonora, às vezes é a interpretação de intenções do autor,às vezes é a identificação com a imagem visual da palavra,às vezes analisamos pela sintese ou tecemos múltiplas hipóteses e escolhemos uma ou temos vivências de situações que nos possibilita a compreenção ou procuramos pistas do autor para ajudar na compreenção e muitas vezes relemos várias vezes para monitorar o próprio processo de leitura para corrigir os erros descartando hipóteses impossíveis.
Na maioria das vezes são todas as possibilidades concomitantemente.No viver e na leitura.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Nevermore (nunca mais)

É o horror.Foi minha primeira impressão ao ler"A Filosofia da Composição" de Eggar Allan Poe.Me senti quase traída quando leio o poema "O Corvo" , me emociono e depois vejo a maneira como foi construído e me espanto.Quanto pragmatismo.Cadê os "ãos": inspiração,imaginação...

Fico disposta a nunca mais ler qualquer coisa do autor.Mas pondero,reflito,releio um e outro,lembro da Rosa Monteiro dizendo que confundimos criador e criatura.O que se escreve é sempre invenção.
Os versos comoventes e belos foram milimétricamente pensados para causar tais impressões.São como uma equação matemática onde a dimensão mais o terreno e o tom,tudo previamente elaborado,resultam em encantamento e prazer.
O escritor tem o domínio da situação.Ele comanda.Ele rege.A imagem da regência me vêm agora muito cristalina.O autor diz que queria uma obra universalmente apreciável,de tamanho menor,melancólico,com estribilho fiel a monotonia do som mas alterado na idéia,busca os personagens ideais :o corvo,a mulher bela que morreu e o amante solitário.Assim o autor,nos trás a palavra,que trás a idéia ,que expande a imagem e as sensações aos olhos do leitor.
Então é um paradoxo.O escritor precisa se distanciar ,ser calculista,quase cruel para chegar a algo tão intenso de rara sensibilidade e profundo reconhecimento do que é mais humano.Nossas fraquezas,a morte e a solidão.
Fica claro que a preocupação com a forma em seu detalhe nos leva ao conteúdo pleno.Há que se ter uma meta para fazer surgir do fundo branco algo previamente elaborado,de valor ,com o tom,a precisão, o terreno e a familiaridade certos.
Nunca mais será tempo de ler um texto ou um verso de beleza estonteante e pensar que tudo veio de um sopro divino.À partir de agora quem se achar agente de pureza divina terá minha antipatia.

Sobre Joãos e Picassos


Como dizia picasso"Que a inspiração te pegue trabalhando", e o João Cabral de Melo Neto,atento que é ou parece ser,nem precisou desta fala do pintor famoso para decifrá-lo e tratou logo de nos alertar quanto a necessidade de organização das idéias em cima de um planejamento concreto,com plano de ação que traga o passo a passo,tijolo por tijolo,concatenando idéias para construir algo muito claro ao pintor , ao escultor, ao compositor ou ao escritor,mas que no seu interlocutor desperte múltiplas interpretações ou não.
As diversas linguagens da criação trazem a singularidade de provocar diferentes interpretações sobre uma mesma obra sem que o seu construtor tenha como controlar ou até impedir que isso aconteça.E qual seria a utilidade de uma obra fechada em si mesma se a arte é um organismo que nasce para ser expandido e compartilhado até a exaustão?
Então tá.Eu construo a minha casinha e qualquer pessoa pode vir e palpitar?E pensar e dizer isso e aquilo?Isso,aquilo,aquilo outro e muito mais, porque se desgarra de mim e torna-se de domínio público, porque nunca se deve bastar com o que sabemos.
Negar essa condição seria como dizer que a compeensão limita-se a uma só.E como ser uma só se a própria produção vêm de formas diferentes,por escassez ou por excesso de ser,segundo João.
Então a pergunta vêm : - Por que será que mesmo com o autor nos desobrigando de uma compeensão hermética do verso e da prosa ,esta é a que nos preenche mais?Talvez porque teríamos a ilusão de um elo mais forte com o autor.Vai saber.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Para Luara




Entro no túnel do tempo com saudade e satisfação porque sei que mãe e filha são elos de uma mesma corrente que se perpetua.Eu sou o futuro de minha filha e minha filha é o meu futuro.
Lembro que a Luara chegou de um parto rápido,bem pequena e tão inteira e tão desejada que mesmo sem saber se seria menina,ela já tinha um nome.
Luara ,nome indígena,coisa de mãe jovem.O nome tem a ver com luminosidade e ela nasceu ao meio dia e pedi alta ao doutor porque sabia que eu e ela nos bastávamos naquele momento.
O nascimento do filho é arrebatador,menos por sua idealização e mais porque é a força da natureza se impondo de maneira brutal e dolorosa que depois acalma como se nada fosse.
E a filha vai crescendo e um dia você percebe que ela te observa enquanto você se troca e remexe nos colares,nas roupas e há uma admiração em seu olhar.Me faz importante.No futuro minhas coisas e até minha imagem,serão dela ,com um pouco de mim.
Hoje minha filha está uma adolescente.Eu a amo e sei que será uma bela mulher,mas sei também que a leveza da infância se foi e que a alegria que ela sentia ao pular corda cada vez mais rápido,como descreveu a professora no relatório escolar de quando ela tinha seis anos,ficou para trás.Talvez ela jamais vá ser feliz como então.
Ambas nos reconhecemos uma na outra,nos admiramos e até nos invejamos.A beleza que perdi renasce nela e a força também.Existem fases duras e fases bem felizes quando conseguimos dividir experiências e fazer planos conjuntos,vibramos uma pela outra nos apoiamos em momentos ruins e comemoramos os bons.Somos bem diferentes,brigamos às vezes mas há uma ponte entre nós que nos une e nos torna parceiras e companheiras nessa jornada em busca de felicidade.Há uma ligação rara entre mãe e filha ....
Por isso toquem tambores,acendam as luzes,e soltem rojões porque hoje minha filha completa quinze lindos anos.

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Eu Não Posso Me Livrar De Mim Mesma

Então é isso,eu leio em busca de aconchego.Quase procurando um colo.Eu não posso me livrar de mim mesma nem de minha história,mas eu posso expandí-la e me juntar ao resto do mundo ou até trazê-lo a mim através da leitura.
Quando a Adélia Prado escreve que limpar um peixe é um ato de amor,eu na minha vida mediocre,no sentido de linearidade,quase vulgar,no sentido de simplicidade, me sinto como se alguém me traduzisse ou até mesmo confirmasse o sentido de minha existência,mesmo que eu já soubesse por intuição.
Gosto da leitura como expansão de idéias.Leio os jornais porque acho que devo,leio as revistas porque me divertem e leio os livros porque me acolhem.Tenho muitos,não os li todos,mas sei que todos terão o seu momento.
Noutro dia indiquei um ao meu filho e dias depois ele me devolveu dizendo que não suportou aquela literatura de "mulherzinha".Fiquei pensando se ele tinha ou não razão...O pai leu e defendeu a minha leitura.E assim eu me apaixonei um pouco mais por este homem que comigo está.
Se leio algo que não compreendo totalmente vou em frente, tentando absorver a informação, mesmo que seja de uma forma generalizada.Mas quando ouço a Márcia destrinchar um poema do João Cabral de Melo Neto,fico com vontade de ter aquela compreensaõ tão caprichada dos poemas,que considero uma leitura bem difícil,mas das mais prazerosas,quando da sua compreensão,porque a palavra ,a frase, o texto,o verso são dignos de nossas palmas ,nossas lágrimas e até de nossa aversão,mas não de nossa indiferença.

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Nada é só o que é

Pensar na minha relação com a escrita,me faz pensar que quando escrevo nada é só o que é,porque eu venho de uma família com mãe professora mas a minha casa não tinha livros e a cidade pequena nem tinha livraria.
E eu gostava de escrever no meu diário aquelas confissões de adolescente e gostava de escrever cartas para o meu irmão que já não morava mais lá e ainda gosto de escrever cartas bem comoventes e até ridículas de tão sensível a problemática alheia, que eu pareco ser,porque não me considero.Então de onde vem isso?Esse desejo de parecer sem ser?
Daí eu volto lá pra minha casa na infância e me vejo ouvindo sempre boa música e gostando muito.A palavra cantada é a minha biblioteca com várias prateleiras...Meu pai me trouxe esse presente.
Nessas prateleiras eu às vezes encontro o choro,às vezes o canto,às vezes a dança e às vezes a palavra que parece a certa e às vezes o silêncio.E é sempre bom.Não consigo ainda dar o tom liríco que eu gostaria muito de encontrar,mas eu chego lá.

segunda-feira, 30 de março de 2009

"Quem se apaixona,cria uma possibilidade"(Tom Jobim)

Olha só,ouvi uma frase linda no rádio,ontem:"Quem se apaixona,cria uma possibilidade"(Tom Jobim).
Quando a ouvi,pensei imediatamente em nossa conversa na aula da última quarta-feira,quando as coisas clarearam tanto,salve Santa Clara,para os que tem fé,dizem que os santos e os deuses,falam conosco, pobres mortais,nas entrelinhas,através de uns toques ou algumas dicas que aparecem às vezes em nossa vida.Eu considero ter escutado esta frase,distradiamente que estava,em um domingo a tarde,ouvindo um programa de rádio,um encerramento maravilhoso para as conclusões a que cheguei em relação a capacidade do ser humano de fazer qualquer coisa que se queira e a possibilidade de fazer algo muito bom,quando nos sentimos confortáveis,desejosos e o meio nos ofereça instrumentos para tal,essa tríade torna possível realizar qualquer atividade,inclusive a escrita.
Observe que esta frase veio de alguém que é muitíssimo competente no que faz,o que a torna ainda mais bela e embasa e ratifica o seu significado.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Reflexões sobre os textos da Rachel de Queiroz


Refletindo sobre os dois textos da escritora Rachel de Queiroz o "Escrever" ( O Estado de São Paulo, 25/03/2000) e "A inspiração não vem para todos" ( O Estado de São Paulo, 25/03/2000) fiquei pensando que os textos nos dizem das dificuldades que encontramos para produzir uma escrita e que mesmo os que tem, o que ela chama de vocação literária, encontram as suas dificuldades pelo caminho.

Algumas vezes discutimos em sala se o dom é ou não uma prerrogativa para que possamos escrever e fico a pensar em outras palavrinhas tais como inspiração, sensação ou impressão que parecem significar coisa nenhuma. Me refiro ao conceito dessas palavras, eu particulamente tenho bastante dificuldade em compreender o conceito das coisas, só as decifro em cima do concreto, por observação ou por conclusão.

Quando a Rachel de Queiroz se queixa das dificuldades que encontra para escrever, penso que se a escritora não estaria vivendo algo assim como um período de colheita de dados ou assimilação de novas idéias para uma futura produção literária.

Acredito em habilidades específicas e o meio em que vivemos as desenvolve ou as subtrai. Considero escrever, uma tarefa para os não preguiçosos, é trabalhoso e achei interessante a Luanna relatar em seu blog que anota tudo em caderninhos para não esquecer. A Rachel de Queiroz diz a mesma coisa em seu texto. Por conta disso cheguei a conclusão de que penso bastante mas não faço anotações e por tanto perco as idéias. Algumas estratégias são tão importantes para escrever quanto a habilidade e só praticando bastante é que formaremos um estilo.

Achei engraçado quando a escritora diz sobre o entusiasmo da família nos feitos das crianças, é a projeção que fazemos nos filhos e que provavelmente nossos pais fizeram conosco.

Se chegamos a identificar as nossas habilidades, a nossa escrita melhorará desde que nos dediquemos ao texto por horas, dias, meses e até anos, e mesmo assim, as vezes a tarefa não estará concluída. E continuamos a catar feijão e torcendo para não desprezar um grão que faria toda a diferença no resultado final.

terça-feira, 24 de março de 2009

A Louca da casa


Escolhi a " A Louca da casa" por ser de autoria feminina e fiquei pensando se a louca neste caso seria a própria autora considerada louca por ela mesma e por seus familiares justamente por ser uma escritora. Será que a escrita e a loucura são parceiras?
Não,as vezes talvez, mas neste caso a " A louca da casa" é a imaginação. ( "A imaginação é a louca da casa" é uma frase de Santa Teresa de Jesus).
Em " A Louca da Casa", a autora Rosa Montero, mistura ensaio e auto-biografia e fala do processo de criação artística.
A autora nos diz que inventamos nossas lembranças e para exemplificar nos conta no decorrer do livro três situações diferentes partindo de um mesmo episódio inicial, de maneira que a muitíssima conversa fiada quando nos narramos.Segundo a autora nós praticamente nos inventamos quando nos relatamos.
Segundo Rosa Montero o romancista profissional sempre quer escrever sobre a escrita, e assim, eu me lembrei que em sala de aula nós comentamos que quando o escritor tenta descrever a própria escrita é muitas vezes um olhar fantasioso e cheio de imaginação sobre si mesmo e assim o texto vai ficando impreciso e confuso. Em alguns momentos durante a leitura deste livro eu detectei esta imprecisão com relação ao ato de escrever.
Nos diz a autora que o escritor esta sempre escrevendo e mesmo que mentalmente vai deslocando virgulas, trocando verbos, afinando um adjetivo e anotando ideias para não esquecer, mas Rosa Montero considera que mais importante que as palavras é a imaginação e que a imaginação nos torna parecidos com as crianças mais do que com os lunáticos. Quando ela lê uma notícia no jornal já começa a imaginar a cena com riqueza de detalhes ou as vezes na fila de um banco observa alguém e já começa a fazer fabulações.Talvez mais tarde esse alguém vire um conto ou um romance. Segundo a autora fantasiar é fundamental para inventar outras vidas.
A escritora nos diz que as vezes está tão inspirada e tão cheia de palavras e imagens que escreve com leveza e também acontece de escrever muito acima de sua capacidade, e as vezes, apavora-se ao não encontrar inspiração e assim escrever palavras ruins e textos inferiores. Pode-se até reescrever o texto mas depois de delimitar a idéia com palavras é dificil voltar a ter a mesma liberdade criativa de antes,diz a autora.
Para Rosa Montero, escrever é uma maneira de pensar e deve ser o pensamento mais limpo, mais livre e mais rigoroso possivel, é um processo lento.
Segundo a autora escrevemos para nós mesmos em primeiro lugar, mas também precisamos ser lidos. O romacista talentoso pesca imagens do inconsciente coletivo e faz com que entendamos melhor nossas vidas.
Os escritores deveriam superar a vaidade e não depender tanto do que dizem os outros,é o que nos diz Rosa Montero, o problema, é que para ser um bom escritor é preciso desejar sê-lo. Sem a ambiação de criar algo bom não é possivel escrever bem.Temos que fazer um esforço constante para escrever na fronteira do que não sabemos.
A escritora diz que há autores que estão sempre girando em torno do mesmo tema e os que avançam sem parar por assuntos diversos,diz tambem que não existe literatura de mulheres, mas sim literatura sobre genêros humanos e também os diversos genêros literarios, tais como jornalismo, poesia, etc., tem suas normas e é preciso respeita-las.Rosa Montero acredita tambem que a leitura é um vicio de todo romancista.
Os ruidos da vida real atrapalham,segundo a autora o escritor pega um nome, uma cara, um espisódio e começa a modifica-lo, dando-lhe outra forma,isto é fazer "A louca da casa" fluir com liberdade, mas não é fácil, porque podemos ficar paralisados pelo medo do fracasso.
Rosa Montero,assim como outros escritores sobre os quais já conversamos em sala,defende a escrita como uma necessidade para quem escreve e diz coisas muito uteis para quem quer escrever tais como a imaginação vem da observação e da leitura e que não temer o fracasso é libertador.

terça-feira, 10 de março de 2009

Lygia Fagundes Telles

Livro: Como Escrevo?
Autor: José Domingos de Brito
Editora: Novera



" Escrevo de uma vez. Quando vem, sai assim encachoeiradamente, com muita paixão. Depois deixo dormir, deixo amadurecer como um fruto amadurece. Em seguida, eu volto e retomo. Esse seria como um trabalho de artesanato. O primeiro impulso é importantissimo que fique gravado como eu escrevi. Depois, então, eu tiro uma palavra aqui, corto outro ali diante, acrescento uma substituo outra. É justamente como um artesanato. (...) Não tenho rotina nenhuma. Sou uma indiciplinada. Mas não escrevo diariamente. As vezes escrevo seguidamente, sem parar. Depois faço pausas, aí entro novamente. É aquilo que o Eclesiastes dizia: Tudo depende do tempo e do acaso. Muitas vezes estou cansada, porque fui a uma festaou a um compromisso, mas me dá aquela vontade desesperada de escrever. Então eu deixo tudo e lá vou. Eu sei que é preciso pegar aquele instante quente, como no amor. Acho que escrever é um ato de amor. E o amor não pode ser adiado."

Fonte: SÁ, Sérgio de. Correio Braziliense, 1° de março de 1998

" Eu trabalho muito sobre o meu texto, é muito intensa a minha luta com a palavra. É impossivel explicar essa luta. Eu sei que há outros escritores que explicam isso muito bem, eu não consigo fazer. Explicar, determinar e analisar essa luta é impossivel Preferiria que o leitor lesse um texto meu e, atarves dessa leitura sentisse o trabalho que houve por tras nos bastidores. Meu texto, às vezes, é muito elaborado, escrevo e reescrevo. A busca da palavra ideal é dificil, é um oficio dificil. É dificil escrever: É o que eu posso dizer. É dificil escrever, como é dificil viver... Ultimamente estou exigindo um certo metodo porque se eu for bscar apenas os instantes em que estiver, digamos, inspirada, esses instantes são muito raros. É preciso se sentar ficar numa iciplina de atenção e de disponibilidade. Eu preciso estar disponivel para escrever. É importante criar a minha ciscunstância disponivel."


Fonte: RICCIARDI, Giovanni, Auto-Retratos.
São Paulo, Martins Fontes, 1991.